Friday, July 13, 2012

Felicidade Obrigatória, Ausência de Frustração e outros Mitos

 Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor. Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade. Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste. Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes. Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade. É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais? Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é umdireito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”. Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer. A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude. Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa. Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir. Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande. Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito. Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência. Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba. 


ELIANE BRUM, Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo). Via Luciano Hulk.

Friday, April 13, 2012

The Arrows - Nas Palavras [de Satanás]

O inimigo tem um tipo diferente de mentira para cada um. O Senhor tem UMA ÚNICA VERDADE para todos. Feliz Sábado!

Thursday, April 12, 2012

Vigiados e Felizes - Muito Além do Big Brother de Orwell

Um homem clarividente, esse Eric Blair, mais conhecido sob o pseudônimo de George Orwell. Alguém que entendia de regimes totalitários, muito antes que o termo começasse a fazer parte do léxico dos historiadores. Alguém que, em 1943, quando Stalin, Churchill e Roosevelt se encontravam em Teerã, já via se perfilar o antagonismo entre as superpotências e a Guerra Fria.

Alguns anos depois da Segunda Guerra Mundial, Orwell publicou o seu romance mais célebre, 1984. O futuro que ele via no horizonte não lhe agradava. Ele pintou o panorama infernal de um reino do terror bem no meio da Europa, que, em um futuro não muito distante, aperfeiçoaria os métodos de Stalin e de Hitler: um partido único no comando de um "Grande Irmão"; uma "novilíngua" idealizada para inverter o sentido das palavras; a abolição da esfera privada; um regime de vigilância de 360 graus, reeducação e lavagem cerebral de toda a população; e, enfim, uma polícia secreta onipotente para sufocar na raiz qualquer tentativa de oposição com a tortura, os campos de concentração e o assassinato.

Felizmente, essa profecia não se concretizou, pelo menos no que se refere ao nosso lado do globo: George Orwell enganou tanto a nós quanto a si mesmo. Mas ele não imaginaria nem em sonho que, para obter ao menos em parte esse resultado – e em particular um amplo sistema de vigilância – não havia necessidade de uma ditadura. Podia-se alcançá-lo mesmo dentro de um sistema democrático, sem o uso de violência, com métodos civis, senão até pacifistas.

Mais de quatro séculos atrás, um jovem francês, Etienne de la Boétie, já tinha começado a refletir sobre esse tema: no seu Discurso sobre a servidão voluntária, não satisfeito em colocar na berlinda os déspotas absolutos do seu tempo, o autor se dirigia principalmente às consciências daqueles que se adaptavam à tirania: "São os próprios povos – escreveu – que sofrem essa chaga, ou melhor, que se fazem mal por si mesmos. Se apenas deixassem de se submeter à servidão, seriam livres. O povo se assujeita, condescende com a sua miséria, ou até mesmo a persegue... Não acreditem que um pássaro se deixe capturar, nem que um peixe abocanhe a isca com mais facilidade do que um povo pronto para se deixar seduzir pela servidão, por pouco que se lhe esfregue um pouco de mel na boca".

De fato, porém, há muito tempo já não temos mais a ver com a figura do monarca único, pessoalmente identificável e atacável, contra o qual Etienne de La Boétie se insurgia. E nem sofremos, como no livro de Orwell, a tirania de um Grande Irmão, mas sim o domínio de um sistema semelhante ao descrito por Max Weber nos anos 1920.

"A organização burocrática, com os seus profissionalismos e especializações, a separação das competências, os regulamentos e as relações de obediência com base em uma escala hierárquica estão levando adiante, em conjunto com a máquina morta, a edificação da estrutura, daquele futuro assujeitamento, no qual talvez um dia as pessoas serão forçadas a se inserir na mais total impotência, como os fellahin do antigo Estado egípcio, se para eles o único e último valor com base no qual se decide a natureza e a administração dos seus negócios for um bom sistema – bom e racional em sentido puramente burocrático – de tutela, abastecimento e gestão. Porque nele a burocracia é incomparavelmente mais eficiente do que qualquer outra estrutura de domínio".

Nas suas previsões, essa estrutura de assujeitamento seria "dura como o aço": mas, embora clarividente, ao menos nisso Max Weber havia se equivocado, dado que, entretanto, a prisão se transformou em um habitáculo relativamente confortável, algo como uma cela espaçosa e elástica, de paredes de borracha. Os nossos vigilantes chegam na ponta dos pés, tentando, sempre que possível, alcançar seus principais objetivos estratégicos – ampla vigilância e abolição da esfera privada – sem fazer barulho. Eles recorrem ao cassetete só quando não há mais nada para fazer. Preferem permanecer anônimos. Não usam uniformes, mas sim roupas civis. Fazem-se chamar de administradores ou comissários e não atuam mais em quartéis, mas sim em escritórios com ar condicionado. Na realização das suas funções, eles têm modos amáveis e cordiais. Aos residentes, eles garantem a segurança, a assistência, o conforto e o consumo. Por isso, podem contar com a aprovação tácita dos habitantes e não duvidam de que os seus protegidos irão pressionar com zelo um botão invisível que diz "Curtir".

Também sobre outro ponto a análise de Weber parece ser anacrônica hoje: a sua desarmadora confiança na força e na capacidade de ação do Estado. Se entre nós essa confiança perde força, não é só porque os Estados são perseguidos, caçados pelos mercados financeiros globais, mas também porque hoje nem Berlim, nem Bruxelas e nem Washington seriam capazes de garantir sozinhas o controle total da população, e isso simplesmente porque os seus funcionários são muito ingênuos e desajeitados.

Além disso, eles não conseguem sequer manter o ritmo dos progressos da tecnologia. Por isso, as autoridades dependem do "mundo econômico", ou seja, das corporações da informática. Só se as duas partes prosseguem lado a lado – os governos de um lado, e empresas como Google, Microsoft, Apple, Amazon ou Facebook de outro – é que as garras sobre as liberdades dos cidadãos atingem a máxima eficácia. No entanto, é claro que nessa frágil aliança o papel das instâncias políticas é o do parceiro mais fraco, dado que só as empresas dispõem das competências indispensáveis, do capital e da necessária mão-de-obra: analistas de sistemas, engenheiros, programadores de software, hackers, matemáticos e criptógrafos.

No século XX, nem a Gestapo, nem a KGB ou a Stasi sequer imaginariam remotamente os meios tecnológicos disponíveis hoje: as onipresentes câmeras de vigilância, o controle automatizado dos celulares e do e-mail, as imagens de satélite de alta definição, os perfis de movimento superdetalhados, os sistemas de reconhecimento biométrico do rosto, programas gerenciados graças a algoritmos impressionantes, memorizados em bancos de dados de capacidade ilimitada.

A última menção de reação, já quase esquecida, contra o zelo das autoridades alemãs e das megaempresas remonta ao distante 1983 – um ano antes da data que deu o título ao romance de Orwell. Um censo relativamente inócuo suscitou então um certo alerta, e as denúncias de muitos cidadãos foram acolhidas pela Corte Constitucional. Os juízes de Karlsruhe não só condenaram a iniciativa do governo, mas também instituíram uma nova lei constitucional sobre a "autodeterminação informática", em proteção da personalidade. Uma sentença que hoje parece ser ingênua: de fato, ninguém jamais se deu conta dela. Na ciberguerra contra a população, os defensores da privacidade dos dados são impotentes e há muito tempo jogaram a toalha.

Sobre um ponto, no entanto – o da evolução linguística –, George Orwell acertou em cheio: a "novilíngua" por ele descrita agora subiu ao posto de jargão oficial da sociologia. A Constituição não agrada aos chamados serviços. Distingui-los dos criminosos da informática não é nada fácil. AS novas carteirinhas de saúde, de fato, nada mais são do que um cartão eletrônico de censo das doenças, facilmente decriptável por qualquer hacker. E, quanto às redes sociais, elas alavancam o exibicionismo dos seus usuários para explorá-los impiedosamente.

Um último e incômodo resíduo de esfera privada é o dinheiro. Portanto, é lógico que o Estado, em conjunto com as corporações, coloque em campo um empenho coerente para aboli-lo, mediante a proliferação de cartões de crédito, de client cards e de outros sistemas de pagamento (via telefone e chips) a serem introduzidos em breve. O objetivo não poderia ser mais claro: exercer uma vigilância capilar sobre a totalidade das transações. Estão interessados nisso, além do fisco, as redes associais, o comércio online, as instituições de crédito, a publicidade e a polícia. Um outro efeito será o de apagar até a recordação da materialidade do dinheiro, reduzido a uma série de dados manipuláveis à vontade.

Com o único objetivo de completar o quadro, passaremos um olhar, por fim, sobre um setor colateral, assinalando as tentativas em curso para abolir os direitos autorais.

O copyright é uma conquista recente, que remonta ao século XIX. Até então, a leitura de livros era um privilégio reservado a uma pequena minoria. De repente, o romance se tornou um produto de massa. Os autores se deram conta de que, graças aos direitos sobre as tiragens e sobre as traduções, a literatura podia ser uma fonte de ganhos substanciais. Infelizmente, não tiveram muito tempo para ficar alegres. O livro impresso, hoje chamado de print, tornou-se um modelo de fim de série para as grandes editoras, que já consideram o copyright como um obstáculo, com grande júbilo das vanguardas digitais. Para esses alegres piratas, a obrigação de pagar um preço por aquilo que a indústria da informática define como content ainda é um absurdo. De agora em diante, os autores, como eram chamados, deverão se resignar a trabalhar de graça. Em compensação, poderão tuitar, usar chats e blogar à vontade.

Ninguém parece se preocupar com o fato de que agora o tempo da deterioração das técnicas à nossa disposição varia de três a cinco anos – o mesmo ritmo dos ciclos dos grandes grupos de informática. Enquanto um texto em pergaminho ou papel desacidificado permanece perfeitamente legível a uma distância de cinco séculos ou até de um milênio, as mídias eletrônicas devem ser passados adiante com uma certa frequência, para não se tornarem inutilizáveis depois de apenas 10 ou 20 anos: um dado que, obviamente, coincide com o espírito dos seus inventores.

A abolição do livro impresso, além disso, não é uma ideia nova. Ela foi anunciada no distante 1953 por Ray Bradbury, em seu best-seller (!) Fahrenheit 451, que descreve os seus desdobramentos até as extremas consequências. Nesse relato utópico, a posse de um livro é considerada crime e punida com a pena de morte. Nas suas visões do futuro, os grandes pessimistas tendem a exagerar. Mas o fato de serem refutáveis testemunham em seu favor e não contra eles. Isso é verdade tanto no caso de Bradbury e de Orwell, como no de Max Weber. Obviamente, para saber mais retrospectivamente, não há necessidade de ser um gênio.

Diante dos prognósticos mais tétricos, surge uma questão, inevitável como o amém na igreja: é possível que não haja qualquer elemento positivo? A resposta é fácil e de grande satisfação: tudo o que sobreveio graças à nossa voluntária servidão não exigiu o derramamento de sangue. Os "resíduos do passado" não foram liquidados, como Lênin tentou fazer na Rússia, mas continuam existindo.

E isso por um motivo evidente: a tolerância dos nossos vigilantes se baseia em um simples cálculo de custo-benefício. Seria muito caro tentar expulsar os últimos refratários, suprimir uma pequena minoria teimosa, que, por pura e simples teimosia, se opõe ao fato digital. Eis porque nos contentamos com uma vigilância de 95%. Portanto, não é o caso de nos deixar tomar pelo pânico: até porque o 5% restantes são equivalentes ainda a quatro milhões de pessoas. E assim também, no futuro, justamente aqueles que não poderão abrir mão dele poderão continuar comendo e bebendo, amando e odiando, dormindo e lendo analogicamente, sem se preocupar muito, e permanecendo relativamente inobservados.

Fonte: Hans Magnus Enzensberger, ex-professor de literatura e filosofia das universidades de Erlangen, Friburgo e Hamburgo. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 08-04-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto, in: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/508403-vigilancia-e-privacidade-digitais-o-big-brother-nao-previsto-por-orwell
 

Thursday, January 26, 2012

Tristeza Permitida

 Tristeza PermitidaNão subscrevo tudo aquilo que Martha Medeiros escreve. Este texto é uma exceção.

"A TRISTEZA PERMITIDA - Por Martha Medeiros em 20 de Novembro de 2005 -  Se eu disser pra você que hoje acordei triste, que foi difícil sair da cama, mesmo sabendo que o sol estava se exibindo lá fora e o céu convidava para a farra de viver, mesmo sabendo que havia muitas providências a tomar, acordei triste e tive preguiça de cumprir os rituais que normalmente faço sem nem prestar atenção no que estou sentindo, como tomar banho, colocar uma roupa, ir pro computador, sair para compras e reuniões - se eu disser que foi assim, o que você me diz? Se eu lhe disser que hoje não foi um dia como os outros, que não encontrei energia nem para sentir culpa pela minha letargia, que hoje levantei devagar e tarde e que não tive vontade de nada, você vai reagir como?
     Você vai dizer "te anima" e me recomendar um anti-depressivo, ou vai dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo a razão da minha tristeza), vai dizer para eu colocar a uma roupa leve, ouvir uma música revigorante e voltar a ser aquela que sempre fui, velha de guerra.
     Você vai fazer isso porque gosta de mim, mas também porque é mais um que não tolera tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo! Telefone já para o seu psiquiatra!
      A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro da nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido. Depressão é coisa muito mais séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou consigo mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem uma razão aparente - as razões tem essa mania de serem discretas.
      "Eu não sei o que meu corpo abriga/nestas noites quentes de verão/e não me importa que mil raios partam/qualquer sentido vago de razão/eu ando tão down..." Lembra da música? Cazuza ainda dizia, lá no meio dos versos, que pega mal sofrer. Pois é, pega mal. Melhor sair pra balada, melhor forçar um sorriso, melhor dizer que está tudo bem, melhor desamarrar a cara. "Não quero te ver triste assim", sussurrava Roberto Carlos em meio a outra música. Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam de fato. Os esforços não são para compreendê-la, e sim para disfarçá-la, sufocá-la, ela que, humilde, só quer usufruir do seu direito de existir, de assegurar o seu espaço nesta sociedade que exalta apenas o oba-oba e a verborragia, e que desconfia de quem está calado demais. Claro que é melhor ser alegre que ser triste (agora é Vinicius), mas melhor mesmo é ninguém privar você de sentir o que for. Em tempo: Na maioria das vezes, é a gente mesmo que não se permite estar alguns degraus abaixo da euforia.
      Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem por isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor - até que venha a próxima, normais que somos."